quinta-feira

O dia em que o Brasil não teve Whatsapp™

João acordou com o toque do alarme. Odiava aquela música que tinha colocado como despertador, mas sempre achava uma nova desculpa para não trocar.
Ligou o wifi do telefone.
Saiu do quarto e foi para o banheiro. A rotina de um novo dia começava. Fazer xixi, lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. Preparar café, lavar uma fruta e fazer duas torradas. Sentar no balcão da cozinha e ler as mensagens que durante a noite tinham rolado nos diferentes grupos nos que participava. Tudo isso, enquanto duas pessoas falavam sobre tragédias na televisão, ao mesmo tempo que diziam que estavam informando à população.
O ícone verde do telefone não apresentava nenhum número na cor vermelha. Zero mensagens novas.
João não entendia o que estava acontecendo. Por que aquele bando de abobados dos colegas de trabalho não estava criticando o chefe e fazendo de conta que eram unidos? Por que aqueles familiares chatos que quase não se suportavam não estavam planejando a reunião de Natal na qual ninguém queria ir, mas todos se fingiam empolgados? Por que aqueles seus amigos do futebol das quintas, o professor, o engenheiro, o médico, o advogado, o arquiteto, o agrónomo, o veterinário, o pedreiro, e o encanador, não tinham enviado nenhum vídeo idiota daqueles que ele odiava, mas que às vezes dava “hahaha”?
Saiu para o trabalho.
Na parada do ônibus as pessoas estavam inquietas. Algumas olhavam os telefones e mexiam neles com certa impaciência, outras conversavam sobre uma decisão judicial que aparentemente gerava certa controvérsia, uma senhora idosa lia um pequeno livro enquanto dava espiadas na direção de onde deveria vir o transporte coletivo. João olhou a hora no celular, o ícone verde seguia sem se mexer.
Subiu ao ônibus e teve que ficar de pé. As duas pessoas que estavam sentadas na sua frente conversavam agitadamente. João começou ouvi-las e entendeu que a decisão judicial sobre a qual tinha escutado na parada era a causa de que aquele ícone verde do seu telefone não se mexesse naquele dia. O Whatsapp™ estava bloqueado em todo o país. Uma sensação esquisita, mistura de surpresa, decepção e desespero o invadiu.
Olhou na sua volta e percebeu que as pessoas não estavam mexendo nos seus telefones. Um casal conversava entre beijos e carícias. Dois senhores discutiam sobre o pênalti que tinha sido cobrado no jogo da noite anterior. Cinco pessoas liam livros, três em papel e dois eletrônicos. Uma moça fazia anotações num bloco.
Direcionou sua visão para a janela e enxergou os morros que ficavam perto da cidade. Pensou que fazia tempo que não via a paisagem daquele trajeto. As pessoas no banco da sua frente pediram licença e levantaram para descer.
João sentou-se do lado da janela e deixou seus olhos se perderem no horizonte junto aos seus pensamentos.

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